Contemplando o Mercado, por Inácio Medeiros

Jul 05, 2022

Análises - Junho de 2022


Primeira vez no blog? Dá uma olhada na primeira análise que fizemos aqui para entender como interpretar os gráficos de prêmios de risco. Confira também a página de metodologia para entender como geramos as figuras das análises.


Bem galera, continuando com a nossa programação normal, vamos às análises do mês de Junho de 2022, marcado pelo São João no Nordeste Brasileiro e pelo "histórico" derretimento do Bitcoin. Por causa disso, nossa análise este mês será feita "de trás para frente", começando com criptos, e terminando com títulos públicos dos Estados Unidos.

Movimento dos prêmios de risco

Movimento dos prêmios de risco

Figura 1 - Movimento dos prêmios de risco

Conforme eu comentei em Junho de 2022, o Bitcoin caiu tanto que perdeu até mesmo um topo histórico anterior. E vejam só! O prêmio de risco da criptomoeda bateu no quantil de 1%, e logo após isso começou a subir! Se olharmos para o histórico do prêmio, veremos que a última vez que isto aconteceu foi em 2021: o prêmio bateu duas vezes no quantil de 1% e em seguida subiu até atingir um patamar superior a 50%. Outro período em que este quantil foi atingido foi entre 2018 e 2019, durante o famoso crash. Isto pode sugerir (e lembrem-se, NÃO É recomendação) que estamos em momento oportuno de se comprar Bitcoin (pensando por um outra ótica, o preço está bem barato). Olhando agora o prêmio de risco Ethereum, podemos ver que fez movimento equivalente ao do Bitcoin. Ele também cruzou o quantil de 1% em 2021, porém uma única vez.

De toda forma, é importante atentar que o finalzinho de ambos os gráficos (Bitcoin e Ethereum, e aqui vale salientar que o último ponto do gráfico é do dia 29/06) mostram que os prêmios estão caindo. Ou seja: nada impede que ainda vejamos em Julho um pouco mais de queda (aliás, até o momento que escrevo esta postagem, esta queda já aconteceu).

Vamos agora para as commodities. Eu comentei na análise anterior duas coisas: (a) que o Urânio (URA) estava iniciando uma movimentação de alta a partir de um fundo próximo do quantil de 1%; e (b) que a prata (SLV) estava se aproximando do quantil de 1%. Em relação ao prêmio do Urânio, podemos dizer agora que realmente era um movimento de alta que estava se iniciando. O prêmio de risco do Urânio inclusive chegou a atingir valores positivos (!), porém terminou o mês (até 29/06, pelo menos) na zona negativa. Outro ponto importante a se dizer é que esse movimento de alta foi carregado de volatilidade (um sobe-e-desce violente), um pouco similar inclusive ao que aconteceu com o Bitcoin em 2021. Em relação ao prêmio da prata, também vimos um movimento de alta no mês de Junho, porém com bem menos volatilidade. O prêmio de risco do Ouro também passou por isso e, diferente das outras duas commodities, terminou o mês na zona positiva (com alguma possibilidade de continuar subindo, inclusive). O movimento do prêmio do Petróleo (XOP) foi o que destoou dos demais: começou o mês subindo, ficando inclusive entre 5 e 10 pontos percentuais do quantil de 99%, e logo em seguida fez uma queda de modo que terminou o mês na zona negativa.

Partindo agora para ações e REITS, vemos que o mês de Junho foi marcado por uma alta volatilidade. O movimento do prêmio de risco do S&P 500 (IVV) refletiu bastante o repique nos preços que aconteceram durante o período. Apesar da alta volatilidade, os prêmios de risco do S&P 500, açoes de crescimento (VUG) e REITS (VNQ) aumentaram em relação ao início do mês. O prêmio das ações de valor (ILCV) ficou virtualmente no "zero a zero". Apesar disso, o desenho que se visualiza tanto no curto prazo como em relação ao histórico é que poderemos ter um mês de Julho de movimentação de alta novamente nos prêmios (e lembrem-se, NÃO É recomendação).

Fechando essa parte das análises com os prêmios de risco dos Títulos americanos. Na análise anterior, eu comentei que poderíamos ver movimentos corretivos nos prêmios dos Títulos no mês de Junho, e realmente isto aconteceu. Além disso, Junho foi um mês de alta volatilidade para estes prêmios, especialmente para os de curto prazo (SHY), que cruzaram de zona várias vezes. Notamos porém uma coisa interessante: todos fecharam o mês na zona positiva, e virtualmente no "zero-a-zero" (na prática, com um pouco de aumento). Nisso é importante darmos um destaque especial para os de longo prazo (TLT): eles estavam na zona negativa desde antes do início de 2022, e agora finalmente passaram dela. Olhando para o desenho dos históricos, a aparência é de que talvez os prêmios aumentem ainda mais nas próximas semanas. No entanto, a escalada nas taxas de juros do FED pode fazer com que esse movimento se inverta rapidamente. Seguiremos monitorando.

Agora que discutimos bastante sobre os movimentos dos prêmios, vamos dar uma olhada nas correlações entre eles.

Quadro de correlações

Quadro de correlações

Figura 2 - Quadro de correlações

Vamo lá: se formos comparar as correlações históricas atuais com as que eu postei mês passado, veremos que as mudanças foram "insignificantes". Isto é natural, posto que foi a adição em um mês a um período de quase duas décadas. Uma coisa que aconteceu bastante foram mudanças de 1 ponto percentual. Por exemplo, a correlação os prêmios de Títulos Longos (TLT) e S&P 500 (IVV) saiu de 0.41 para 0.42. A dos Prêmios de S&P e REIS também aumentou, de 0.84 para 0.85. Isso inclusive coincide com os movimentos que analisamos nas curvas históricas: ambos os Títulos, as Ações e os REITS passaram por forte volatilidade culminando no aumento dos prêmios de risco.

Agora um fato curioso: a correlação entre Títulos Curtos e Médios (SHY e IEF) com as Criptos permaneceu intacta, enquanto que a de Títulos Longos aumentou 1 ponto percentual (de 0.09 para 0.1 TLT-BTC e de 0.04 para 0.05 TLT-ETH). Considerando este tímido aumento de correlação junto com o fato do TLT ter fechado o mês na zona positiva após um longo período na zona negativa um sinal de que algo semelhante acontecerá com as criptos? Há uma possibilidade que sim. De toda forma, é imporante lembrar que tudo pode acontecer no mundo cripto. (Mais uma vez) Seguiremos monitorando.

A história muda, porém, quando olhamos para as correlações dos últimos três meses. As correlações entre Títulos e Criptos diminuiram 10% na média. Por exemplo, TLT-BTC saiu de -0.52 para -0.64. IEF-BTC saiu de -0.6 para -0.7, e TLT-ETH de -0.6 para -0.73. É importante apontar, porém, que este aumento de correlação negativa também pode ser um sinal das criptos estarem pelo menos próximas de um fundo, posto que, geralmente, corelações nestes patamares podem indicar que as duas classes em algum momento próximo poderão inverter seus movimentos (quem está subindo cairá, e quem está caindo subirá). Importante apontar também que, para "pessoas comuns" como a gente, não dá para saber com exatidão quando (exatamente) ocorrerá este ponto de inflexão, como já diria Richard Rytenband aqui e aqui.

Correlações entre grupos de classes de ativos

Para fechar o post, vamos colocar as diversas classes de ativos em grupos maiores e ver como se correlacionam:

Correlações entre classes de ativos

Figura 3 - Correlações entre classes de ativos

Se comparando as classes individuais a gente percebe que houveram diferenças mínimas nas correlações históricas de um mês para o outro, isto se confirma quando observamos as correlações macro: tudo intacto, com exceção das criptos (e ainda assim, a correlação entre Criptos e Commodities se manteve). Por um lado, era até espeardo acontecer isso com as criptos, dado que Junho (e meses anteriores) foi marcado por quedas bastante acentuadas, principalmente por parte do Bitcoin. Temos aqui, porém uma anomalia muito peculiar: enquanto a correlação registrada em Maio para os grupos de Títulos US e REITS foi de 0.17, a registrada em Junho foi de 0.0077! Uma diminuição de mais de 15%! Tenho duas explicações para isso: (1) o código (ou os dados) que uso para gerar essas correlações "bugou"; (2) enquanto Títulos "andaram de lado" o mês todo, REITs tiveram uma franca expansão no prêmio de risco, ocasionando assim numa diminuição drástica nas correlações. Em relação a "(1)", seguiremos monitorando os números para vermos o que acontece. Em relação a "(2)", caso os prêmios dos Títulos façam movimentos mais direcionais agora em Julho, talvez vejamos esta correlação voltar a subir. Podemos estar diante de um momento outlier.

Finalizando o post

O mês de Junho foi marcado essencialmente pelo derretimento do Bitcoin, aumentando ainda mais as correlações negativas com os Títulos Americanos. De outro lado, os próprios Títulos estão todos no positivo, apesar das políticas do FED, e os prêmios das ações iniciaram um movimento de alta interessante. Será que estamos próximos de uma "virada de ciclo", ou pelo menos iniciando os preparativos para uma? Os sinais indicam que sim, porém tudo pode acontecer (por isso que venho reiterado que nada aqui é recomendação de compra ou venda). Só para fazer um contraponto, é importante apontar aqui que as correlações talvez ainda tenham espaço de se alargarem um pouco, assim como os movimentos que vimos este mês. Em um estudo que fiz ano passado, eu verifiquei que o mês de Julho, para praticamente todo tipo de ativo em renda variável, é caracterizado, na média, por ser de alta. Vamos ver como vai ser este ano.

Até a próxima postagem!